segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Eduardo Caetano fala sobre Violentina


Tarantinesco, é assim que posso definir o estilo de Eduardo Caetano, autor de Violentina e amante de um tipo de cinema onde a violência é arte e música. Repleta de referências de filmes como RocknRolla e Pulp Fiction, a obra de Caetano é um marco na história do RPG Nacional. Não estou exagerando, a experiência com o financiamento coletivo servirá de exemplo para os próximos autores. Estive fuçando a obra do cara desde o inicio do ano e com o lançamento do livro físico chegando, resolvi procurar o Eduardo para que ele respondesse algumas perguntas para vocês. Notei muita simpatia e boa vontade, mas acima de tudo: o cara sabe o que faz e fez um RPG com a cara dele, mas que será a cara de muitos RPGistas no Brasil. Sem mais firulas, pois isso não combina com a matéria, com vocês o Tarantinesco Eduardo:

Quanto de Tarantino, Guy Ritchie e Frank Muller tem em Violentina? Esses diretores te inspiraram de que forma?

Huummm... 60% do Tarantino, 35% do Ritchie, 2,5% do Miller e 2,5% de uma salada de frutas podres do cinema apelativo (Exploitation) dos anos 70! 

Como jogador de RPG, gosto de perceber a maneira como as pessoas contam suas histórias, ou como e o porquê de elas conseguirem ser boas nisso. No caso do Tarantino, o cara consegue contar histórias sobre glamourização da violência de uma maneira muito específica, frenética, não-cronológica, não focada nos (geniais) personagens, e sim na relação entre eles. 



Sem contar que ele bota no liquidificador uma porrada de referências pop, quase kitchs, e que a princípio não teriam relação nenhuma uma com a outra. Acho isso genial. Por que me diverte, me entretém. Tanto, que me provocou a vontade de criar um jogo inspirado nestes aspectos.

Já Guy Ritchie faz algo semelhante, mas com um formato diferente, mais videocliptico, preocupado com uma verosimilhança, e não menos genial. Conta histórias sobre como as atitudes ganaciosas de gangsters wannabes ingleses desencadeiam situações absurdas e com consequências ironicamente catastróficas. 


As histórias de Ritchie possuem um aspecto mais catártico. O que acredito ser um bom ingrediente pra mistura.Sou muito fã de Demolidor, mas eu não conheço a fundo a obra de Miller (a não ser pelo que se filmou dele), e se houve alguma inspiração, com certeza foi esteticamente. Dou muita importância a experiência estética nas coisas que faço ou experimento, portanto provavelmente Frank Miller está de alguma forma implícita na parte gráfica do livro. Mas acho que a principal inspiração consciente veio de um quadrinista tupiniquim, o Greg Tocchini, (que na época da Dragão Brasil era conhecido como Evandro Gregório). O trabalho dele evoluiu constantemente ao longo dos anos, mas eu tenho um apreço incomensurável pelos primeiros desenhos dele, o traço cru em alto contraste de luz e sombra, preto no branco, naquim chapado.Tenho um fetiche obsessivo com livros, como objeto físico. Queria evidenciar isso na experiência tátil do Violentina, da textura do papel e da tinta sobre ele. Espero ter conseguido.


Qual filme você viu e disse: quero fazer um RPG sobre isso!

Cara, com certeza foi Pulp Fiction!

 Assistindo ao filme, eu ficava sempre me perguntando em como seria possível transferir a experiência de assistir Pulp Fiction pra mesa de jogo, pois acreditava que esta poderia ser inclusive mais intensa, uma vez que ela não seria a princípio, somente "consumida", e sim produzida coletivamente. 


Estando fascinado com as discussões teóricas de RPG Indie da última década, tendo experimentado jogos com formatos mais audaciosos (como Fiasco, A Penny for my Thoughts, Shotgun Diaries, etc...), e meio que estar "estudando" a forma que estes jogos foram desenhados para cumprirem o papel a que se propunham, foi só somar dois mais dois na minha cabeça pra fagulha de tensão criativa incendiar minha mente.Então me propus a fazer isso. Um RPG que transportasse histórias Tarantinescas da tela do cinema, para a mesa de jogo. Mas não foi de uma hora pra outra. Os fatores foram se somando ao longo do tempo, até eu sentar a bunda na cadeira pra escrever alguma coisa. Enquanto eu ia revendo Snatch, e me divertindo pra caralho com o revival Grindhouse do Robert Rodriguez, eu ia confirmando e sedimentando a idéia: "Há, isso se encaixaria bem no jogo... Isso também!"ou "Isso daria uma boa mecânica!


Como foi a experiência de lançar um livro através do financiamento coletivo?

Cara, tem sido intenso!
 Eu e o Rocha, da Secular ainda estamos imersos no meio do processo (no fim na verdade), e ainda estamos digerindo as coisas. Mas já dá pra afirmar algumas coisas.Talvez o nosso principal macro-objetivo era testar o formato, ver se era viável, e abrir mais uma porta cheia de possibilidades para o hobbie no Brasil. 



Acredito que a experiência se confirmou bem sucedida e podemos dizer que financiamento coletivo é uma alternativa muito interessante de publicação de RPG por aqui. Dá pra dizer que é algo que vale a pena, sem riscos e que pode inclusive potencializar seu produto, seu jogo, se você buscar explorá-lo nessa direção, como uma ferramenta.


Violentina segue a linha de novos RPGs como FIASCO, apresenta vários itens como cartas, brindes diversos e pode ser jogado sem mestre. O RPG está pendendo para esse novo estilo?


Não acredito que o RPG caminhe necessariamente nesta direção.


 Na forma como vejo, acho que apenas estamos explorando outras formas ou novas formas de abordar o hobbie. Nessa busca, por vezes esbarramos em jogos similares, que estão ali colados no hobbie, jogos de tabuleiro, jogos de cartas, brincadeiras de infância, etc. Exploramos o potencial de suas mecânicas e acabamos por borrar os limites que os separam. Acho muito válido. Isso sim pra mim é exaltar a máxima que diz: "Não importa como é feito, desde que você esteja se divertindo".Por isso que jogos como Fiasco nem são considerados RPG por alguns, mas inevitavelmente acaba sendo um jogo praticamente só de rpgistas. Pois no final das contas, são ramificaçnoes de um tronco comum. 



Em uma analogia tosca com o universo da música, é como se Fiasco por exemplo fosse Punk, o Burning Wheel mais Heavy Metal, o GURPS um Progressivo... Mas todos acabam sendo derivados da mesma raiz: o bom e velho D&D Rock n'Roll. 


 As novas vertentes não virão pra substituir as velhas. Elas virão acrescentar mais opções, ao variado leque de possibilidades.O RPG é uma mídia muito flexível, que nem sabemos ainda ao certo, o limite de sua elasticidade. Algumas pessoas se predispõem a testar estes limites, explorar seus potenciais latentes, obscuros.  E com a internet, não existem mais empecilho pra conectar estas pessoas, de interesses rpgístico específicos em comum. Então a produção de conteúdo novo e original se intensifica. A informação se espalha facilmente, e uma boa ideia nova vira notícia, dando a impressão de isso é "a nova onda do momento". Mas os grandes bestseller ainda são os mesmos. D&D, Vampiro, Tormenta, etc tem tiragem a cima dos milhares de livros. Fiasco, 3:16, Violentina, ainda estão longe de justificarem tal tiragem. Se considerarmos que RPG é uma mídia de nicho, estes indies seriam nicho do nicho. Acredito que esse cenário ainda permanecerá por muito tempo, e não acho isso ruim, de maneira alguma. O legal, é que agora começamos a ter mais opções na cena nacional, e não dependemos de uma produção centralizada, nuclear, pra termos acesso aos jogos que queremos consumir.


Quanto a questão da variedade dos acessórios, Violentina por exemplo foi concebido pra se jogar com o mínimo de acessórios possíveis, apenas um par de baralho, lápis e papel. Acontece que mesmo assim, caso você deseje, o jogo permite se utilizar de uma gama de bugigangas, para cada um de seus aspectos. Nós jogadores gostamos destes "props". São objetos de fetiche, de coleção, de focalização, de imersão e intensificação da experiência de jogo. Isso foi explorado durante a campanha de financiamento coletivo, oferecendo inúmeros acessórios exclusivos, como uma espécie de presente de agradecimento a quem contribuiu com a viabilização do jogo.

Durante a fase de captação de recursos para o livro, você recebeu a ajuda da comunidade RPGistica. Como foi isso? Você esperava essa campanha?

Não esperava, de forma alguma! Mas tenho certeza de que isso só foi possível graças a parceria com a Secular. 

Em resumo, o processo se deu mais ou menos assim:Durante a RPGCon 2011, a fim de tentar divulgar a idéia, deixei no stand da editora dez cópias impressas de rascunho da versão de playtest e uma centena de folders, explicando o jogo e como queria bancá-lo com o finaciamento coletivo. Esta versão do livro acabou em duas horas, o que pra mim foi surpreendente e estimulante. Logo na semana seguinte, já havia um burburinho sobre o jogo pelos blogs que cobriram o evento.Uma semana antes do início da campanha, o Rocha enviou um pré-release do jogo e da campanha para vários blogs parceiros, e estes começaram a divulgar. Acredito que foi aí o ponto fundamental desta ajuda. Pois na semana seguinte, batemos a meta da campanha em menos de quatro horas. Isso só pode ter sido resultado desta divulgação prévia, desta ajuda da comunidade. A partir de então, o próprio fato de termos atingido a meta tão prematuramente se tornou a notícia pertinente a se espalhar, gerando uma reação em cadeia, nos trazendo ao ponto atual.



Violentina portanto, é um produto resultante desta ação coletiva da comunidade Rpgística. Ela recebeu o dedo de centenas de pessoas. Me chame de corno quiser, mas tenho orgulho de afirmar que Violentina não me pertence, não tenho ciúmes desta vadia. Abri as pernas e a entreguei pra todo mundo que desejasse por as mãos nela. E não tem como eu ser mais grato por isso.
 Soube que você tem testado vários RPGs Indies gringos e nacionais. Explica pra gente o que é indie e indica um para os leitores do blog.


RPG Indie é um termo tão controverso, que vou dar apenas a minha visão pessoal da parada toda, ok?Acredito que "Indie" pode ser aplicado a diversas esferas do hobbie. Eu aplico o termo a três questões que são meio indissociáveis e que se permeiam entre si. É a questão da Editora, da Autoria e do Conceio.A princípio, por ser uma abreviação em inglês de independente,Indie remete a ideia de fazer um jogo sem depender de uma editora, pra produzir, divulgar e o vender. Portanto esta seria a aplicação do aspecto Editorial do termo. 


O jogo Indie Autoral, seria aquele em que o autor tem completo domínio sobre seu conteúdo, sendo ou não lançado através de uma editora, e cujo conteúdo pode ser tanto original, quanto uma repetição da mesmice. O lance aqui, é que o autor dita as regras, e portanto é "independente".

Já o aspecto Conceitual diz respeito ao próprio conteúdo do jogo. Ele pode tanto ter sido produzido pela MegaEditora™, em capa de couro, com páginas folheadas a ouro, quanto xerocado na garagem de casa e distribuído no sinal, não importa. Se o seu conteúdo diverge do que já existe no mercado, questiona o próprio hobbie, propõe novas formas de encarar o jogo e mesmo de joga-lo, ele acaba podendo ser considerado Indie, pois o seu conceito foge do mainstream.

De qualquer forma, acho que mais do que remoer esta definição, o importante é jogar, experimentar e se divertir, sem se preocupar se este ou aquele jogo é melhor ou pior do que o outro, se este é ou não RPG. Definir Indie só importa na medida em que a definição potencializa a sua experiência de jogo. Caso contrário, deixa pra lá... =]

Quanto a indicação de um jogo... hum... putz! São tantos pra indicar! 


Mas se for pra escolher um específico, sugiro então o Abismo Infinito, do John Bogéa. Ele reúne praticamente todas as qualidades que eu procuro num jogo Indie, tem mecânicas enxutas mas bem focadas e um cenário fantástico de Horror Psicológico Espacial Lovecraftiano. Além de ser gratuito! =]

Qual a previsão de lançamento do livro físico de Violentina e como podemos adquirir um exemplar deste novo RPG?

A previsão é de que a Secular Games comece a venda ainda este ano, antes do Natal e poderá ser adquirido na loja virtual da editora: 

5 comentários :

  1. Era disso que o RPG Nacional precisava, bala neles Eduardo!

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  2. Larissa Sobreira (SP)14 de dezembro de 2011 10:24

    Nem conhecia a Secular Games, vou dar uma olhadinha, fiquei bastante interessada. Parabéns pela entrevista.Ficou show.

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  3. Aí Edu, parabéns cara, show de bola, sucesso... Ab

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  4. Violentina já está à venda pessoal:http://www.secular-games.com/2011/12/violentina/

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  5. Foda! Simplemente foda.

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